Notas de encenação "Frei Luís de Sousa"


O cenário é despojado e vermelho. Velas vermelhas evocam um lago de fogo. Os quadros são estilizados, sem moldura. As mesas e cadeiras estão forradas de vermelho.

No início do espectáculo tentaremos recuar ao século XVII através da música. “Postos estão frente a frente os dous valerosos campos” é um romance que se cantava nos princípios de seiscentos sobre a Batalha de Alcácer-Quibir. É utilizada a versão em castelhano, pois na altura em que decorre a peça Portugal encontra-se sob o jugo Filipino.

As personagens entram lentamente, como se fossem convocadas pela música. Chegou o momento de confrontarem os seus piores medos e fantasmas. A cena está vestida de vermelho escuro, numa sugestão de sangue (Maria cospe sangue e está a passar da infância para a idade adulta; o sangue derramado na Batalha de Alcácer-Quibir), de fogo (Manuel de Sousa incendeia a própria casa para impedir que os espanhóis a tomem) e de paixões (desejo, vingança, patriotismo).

É neste cenário de sangue e fogo que as personagens irão ajustar contas com o passado, com os seus medos que agora se tornam presentes. E aqui não há fuga possível, pois o cenário está vazio, sem nada onde se possam esconder.

Nesta encenação pretendeu-se que os actores se sentissem irremediavelmente vulneráveis e expostos, de modo a acentuar o desconforto das personagens.

Por vezes, a ausência de objectos é levada ao limite pois, quando existem, estão vestidos de vermelho (mesas, cadeiras) de modo a confundir-se com o fundo da cena.

A iluminação por vezes funciona como elemento de ocultação, fazendo com que os actores fiquem reduzidos a meras silhuetas, à semelhança de fantasmas saídos de um momento triste e pouco glorioso da História de Portugal. A utilização das velas no proscénio também tem o intuito de nos fazer recuar no tempo, até à época em que as representações teatrais eram efectuadas à luz das velas.

Estes elementos conferem à peça uma penumbra fantástica e misteriosa, propícia ao clima denso da tragédia.

Neste universo quase espectral, a chegada do Romeiro, que todos julgavam morto, começa a desencadear consequências trágicas, levando a um despojamento por parte das personagens D. Madalena de Vilhena e Manuel de Sousa (ambos abandonam os bens materiais), e culminando com a morte de Maria.

No final, a cena reflecte esse despojamento, encontrando-se completamente despida.

Os actores agradecem ao som de cânticos gregorianos, iluminados unicamente pela luz das velas, mas de repente essa música antiga transforma-se em música moderna, as luzes acendem-se, e o espectador termina assim a sua viagem pelo tempo.

5 comentários:

Tiago Moreira Ramalho disse...

Olá. Eu fui assistir a peça há uns dias e sinceramente gostei. Considero que o cenário estava interessante, no entanto, apresentava algumas "falhas". Obviamente não sou um crítico de teatro, no entanto, e nesta circunstância, isso não é propriamente mau pois já que isto é para jovens analisarem, seria interessante ser "adaptado" a leigos da arte cenógrafa. A opção pelo vermelho é muito interessante, no entanto, por seu TUDO vermelho, passa um pouco despercebido, diria eu: "passa ao lado", enquanto que a opçao pelo sangue nas roupas da maria seria muito mais "chocante". Um pormenor que foi visto por um amigo meu foi a questão das flores da maria: ela aparece com as flores vivas mas nao com as flores mortas, opçao que seria muito interessante pois mostraria alguma dualidade. Durante a interpretação nao passa a admiraçao gigantesca que Maria tem pelo seu pai, Almeida Garrett deixou nos implicito que ela tinha o pai na mais alta estima, ele era como que um heroi para ela, no entanto, a unica parte em que isso e minimamente vizivel é na parte em que ela sai com ele deixando a mae em casa, nem duranto o incendio ela se mostra "alegre" e "empolgada" como no texto original. A opçao pelo Romeiro "sem cara" foi optima, pois desse modo passou realmente a ideia de: quem es? NINGUEM!. Por fim gostaria apenas de deixar uma ressalva, acredito que seja muito mais empolgante para o encenador ter um trabalho mais artistico e menos "preso ao original" mas, por vezes para os jovens, convem que se seja um pouco mais "obvio" e menos "artistico". Obrigado e continuem o bom trabalho!

Anônimo disse...

eu fui assistir a vossa peça do frei luis de sousa e adorei achei todos espectaculares e no final voçes foram mto queridos em terem vindo falar cnsco adorei mesmo fiquem sabendo que quando puder a gente volta ai

Anônimo disse...

eu fui assistir a vossa peça do frei luis de sousa e adorei achei todos espectaculares e no final voçes foram mto queridos em terem vindo falar cnsco adorei mesmo fiquem sabendo que quando puder a gente volta ai

Joana disse...

Estive à poucos dias a assistir à vossa encenação do frei luis de Sousa. Gostei, mas no entanto as minhas espectativas não foram cumpridas. O facto de todo o cenário ser vermelho não ajuda muito na passagem do tempo que se sucede causando baralhação no publico. Acho que os actores têm de melhorar as suas interpretações, transmitindo mais intusiasmo ao publico, e não fazendo tantas pausas no seu discurso, dá a sensação que se esqueceram do texto. A musica, as luzes e o fumo estiveram muito bem, muito adequado à acção. Quero dar os meus parabens ao actor que desempenhava o papel de Manuel de Sousa Coutinho pois esteve brilhante na sua interpretação.

Graça Teixeira disse...

Assisti, há dias, em Leiria, à vossa representação acompanhada de duas turmas do 11.º ano.
Obrigada pela oportunidade que nos dão de levarmos o teatro até aos nossos alunos (muitos dos quais nunca tinham assistido a um espectáculo desta natureza).
Continuem, pois estão a desempenhar um importante papel no desenvolvimento cultural dos nossos jovens.
Graça T.